28 de fevereiro de 2011

falta um pedaço

Ela pensava que era só mudar tudo, de repente, que as coisas ficariam ajeitadas. Trocou de emprego, teve que reorganizar a vida, mudou a rotina, passou a ter raros momentos de tranquilidade. A cabeça agora estava quase que totalmente ocupada. Quase. Faltava um pedaço.

O espaço restante não era qualquer um. Era dos mais difíceis de preencher. Ao longo da vida ela abriu mão desse pedaço para preencher os outros. Escolheu os estudos, a carreira, os amigos. Conheceu o mundo e o mundo a conheceu. Conheceu a si mesma e viu que não podia ficar sozinha. O cantinho fora ocupado algumas vezes nesse período, mas sempre por andarilhos que não ficavam por muito tempo. Chegavam, passavam uma temporada, enjoavam - ou ela enjoava - e iam embora. Alguns entravam sem bater, outros saíam sem ao menos se despedir. Encontros de inícios distintos, e finais idênticos.

Agora ela se senta na cama, em seu quarto, e tenta entender se chegou mais um visitante. Tem quase certeza de que sim. Às vezes, se pergunta se ele pede para entrar, em outras não tem dúvidas de que ele quer só uma conversa, sem passar pela porta. Ela quer que ele entre. Ele não sabe se quer, não sabe que ela quer. Ela está feliz em um dia, triste no outro, indecisa quase sempre. Sabe que quer continuar mudando, mas não parece querer que aquele espaço seja ocupado por outros andarilhos além daquele que está ali, à sua frente. Se ocupa de todas as formas, procura distração em cada carro que passa na rua, modela a vida da forma que prefere, como sempre fez. Mas algo permanece fora de seu controle. Falta um pedaço.


3 comentários :

raFFa disse...

Excelente texto. Gostei muito mesmo!!

Gege disse...

Ficou legal mesmo. Parece letra de música do Renato Russo.

Adriana Caitano disse...

Nem preciso dizer que sou sua fã, né? Orgulho!